Sem Título #023





Solenemente sentou-se e começou a pensar. Aquela seria a última vez que ela usaria aquela máquina de escrever.


Escreveu duas linhas. A ponta de seus dedos doiam. Resolveu escrever a próprio punho, isso a livraria da dor. Releu o havia escrito, mas não gostou daquilo. Triste demais, melancólico demais.

Parecia que estava lendo um poema de Álvares de Azevedo. Não era isso o que queria. Passara a vida toda nessa tristeza, nessa melancolia que só 'Lira dos Vinte Anos' poderia descrever. Não era isso o que queria. Queria a alegria, o contraste, a beleza, porque agora ela seria feliz, se livraria dessa face que não gostava, dessa família que só lhe trazia vergonha, de si mesma, que não soubera aproveitar a dádiva que é viver, porque não sabia e porque ninguém a ensinara.

Rasgou o papel com fúria, como quem rasga a própria vida, a própria existência e começou a escrever de novo, como quem pode começar a viver novamente, do nada, numa folha de caderno.

Tentou lembrar-se de coisas boas.

Lembrou-se do dia em que, ainda criança, andou de teleférico em Campos do Jordão. "-Que coisa mais linda! E como esse mundo é grande!" - pensou ao lembrar do o horizonte que vira lá do alto, com aquele brilho que só quem é criança pode ter nos olhos. Estava de alguma forma revivendo aquilo. E assim, lembrou que em sua vida não haviam apenas lembranças ruins, que mesmo poucas, mas haviam coisas que a faziam sorrir por um breve instante.

Fez uma lista de todas pessoas que havia encontrado em sua breve existência e sem querer, percebeu o quanto aprendeu com cada uma delas. Coisas boas. Coisas ruins. Coisas que a tornara melhor. Coisas que a fizera perceber que existem pessoas ruins no mundo. Pessoas que ela ajudou e que ao mesmo tempo a ajudou, fazendo com que ela se sentisse útil.

Não. Sua vida não era só de tristezas, e nesse momento ela estava estava aprendendo a conhecer quem era a tal da vida e descobriu que ela, a vida, não era alguém tão ruim assim. E que ainda que fosse ruim, sabia que valia a pena continuar tentando.

Dobrou o papel e o colocou no mural e seu quarto, junto com as fotos de sorrisos que se tornaram eternos, assim como aquele.

Colocou seu All Star batido, o mp4 no bolso e saiu...

Para ver o pôr-do-sol novamente.

Como ainda faria por muitos e muitos anos.



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Sem Título #022




"Apesar da pouca idade, já conhecia os danos que a solidão era capaz de causar nas pessoas, principalmente quando ficam velhas.

Encontrara pessoas que haviam perdido todo o brilho de viver, porque não conseguiam mais lutar contra a solidão, e acabaram ficando viciadas nela, eram pessoas que achavam que o mundo era um lugar sem glória, que gastavam suas tardes e noites falando sem parar dos erros que os outros haviam cometido.

Eram pessoas que a solidão havia convertido em juízes do mundo, cujas sentenças se espalhavam aos quatro ventos, para quem quisesse ouvir"


Brida, Paulo Coelho


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Sem Título #021



"Tudo se resumia ferozmente em nunca dar o primeiro grito - o primeiro grito desencadearia todos os outros, o primeiro grito, ao nascer desencadeia uma vida, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes que iniciariam pelos telhados um coro de gritos e horror.
Se eu gritasse desencadearia a existência - a existência de quê? A existência do mundo. Com reverência eu temia a existência do mundo para mim."


Clarice Lispector




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Sem Título #020

Meu oftalmologista é um senhor de 50 e poucos anos. Cabelo branquinho e óculos.

Hoje eu fui lá pra fazer o teste de lente de contato e depois de mais de uma hora esperando e ouvindo conversas de idosos na sala de espera, chegou minha vez.

Entrei na sala e aquela coisa de sempre, cumprimenta, e enquanto prepara as coisas pra fazer os procedimentos ele pergunta no que eu trabalho:

-Ah, tô desempregada agora.
-Ah tá...Trabalhava com o quê?
-Com vendas, numa empresa.
-Hum. Então, seu grau não aumentou, viu. E você pode usar lente gelatinosa mesmo, sem problemas.
-Ahããm.


Dai na mesinha de procedimento:

-Você trabalha no quê?
-Então, tô desempregada.
-Hum...mas trabalhava com o quê?
-Com vendas


De volta pra mesa dele pra anotar as informações:

-Hum. Qual sua idade?
-Tenho 19.
-Quando fizer 21 você pode operar. Sabia disso, né?
-É, o senhor me disse da outra vez.
-Trabalha no quê?
-Como eu disse, eu estou desempregada, sabe?
-Ah...

Dai entra o secretário dele

-Com licença, Doutor, o retornodo Sr Zezinho é pra marcar pra quando?
-Ué, mas eu disse pra ele.
-Ah, é que ele não se lembra...
-Hum, é pra daqui a 10 dias, eu disse isso pra ele.
-Ah, obrigada.

O secretário sai.

-Esses idosos! Acabou de sair daqui da sala e nem se lembra quando é pra remarcar! Eu falei pra ele que era daqui a 10 dias. Eles esquecem só de andar daqui da sala até a recepção! Essas pessoas de idade tem dificuldade com a memória, né?

Eu que o diga!



Sem Título #019






Tentei moldar a perfeição, tentei uma fábrica de sonhos...

A falha foi que os sonhos foram frustrados.

Tentei construir asas de cera pra voar rumo a dias mais bonitos, mas desisti.

Sei por Icaro que não é uma boa idéia.

Tentei conformar-me e esperar quieta, mas não sei calar, nem em meu erro. Não dá para sufocar o grito desnecessário.

Tantos esforços e depois de tudo me encontro aqui, vazia...

Não sei se foi perda de tempo ou esperança, mas estou disposta a aceitar a verdade.


Sem Título #018

Em uma cidade pequena sigo por uma rua até dar de cara com uma bifurcação em "T"



Viro a direita e ando até encontrar outra bifurcação na mesma forma.

Desta vez, escolho ir para a esquerda;

E assim vou repetindo sucessivamente, só para descobrir até onde consigo chegar.

Um tempo depois acabo entrando numa via grande que não dá para nenhuma bifurcação,

E decido retornar.

O problema é que todas as vias que antes eram bifurcações, transformam-se em simples entradas laterais irreconhecíveis.

"Isso é misterioso! Deve haver um truque", pensava eu em minha boba infância enquanto era obrigado a perguntar o caminho de volta pra casa.

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Construir ou Plantar

"Os construtores podem demorar anos em suas tarefas, mas um dia terminam aquilo que estavam fazendo. Então param e ficam limitados por suas próprias paredes. A vida perde o sentido quando a construção acaba.

Mas existem os que plantam. Estes ás vezes sofrem com as tempestades, as estações e raramente descansam. Mas ao contrário de um edifício, o jardim jamais para de crescer. E, ao mesmo tempo que exige a atenção do jardineiro, também permite que para ele, a vida seja uma grande aventura.

Os jardineiros se reconhecerão entre si - porque sabem que na história de cada planta está o crescimento de toda a terra"


Brida - Paulo Coelho


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Sem Título #017


Houve uma recaída, uma crise.

Se vissem tal cena chamariam uma ambulância que a levaria ao manicômio.

Parecia louca. Era fato.

Chorava compulsivamente. As vezes tão alto que os vizinhos poderiam ter escutado o pranto.

Havia uma vontade pela dor, como se para redimir a culpa. Ou para aliviar outra dor.

Havia um quase grito. Um olhar pela janela esperando o impossível.

Havia um perambular pela casa. Os calçados devem até ter ficado gastos.

Havia lembranças, fragmentos de lembranças. Coisas que não se quer mais. Mas havia, havia tudo, havia demais...

Sem Título #016

Ai eu chego na aula e Fulaninha começa puxar assunto. Um detalhe é que eu nunca tinha conversado com Fulaninha nesses 5 meses que estudamos na mesma turma.
-E ai, já comprou suas roupas brancas?
-Sim.
-Tudo, tudo?
-Sim.
-Ah, eu também, comprei tudo hoje. Como as coisas estão caras menina! Gastei uma nooota! Meu Deus! E como foi difícil encontrar os sapatos!



Silêncio.



Umas das coisas que me irritam (e que não são poucas), é quando alguém me faz uma pergunta com o único objetivo de contar histórias sobre a sua vida, histórias estas, que por coincidência não me interessam. Sério! Eu fico louca e dai o Senhor Irônico que mora na minha cabeça começa a me cutucar, doidinho pra dar uma alfinetada...Mas eu me controlo.

Sem Título #015

" A noite era apenas uma parte do dia.
E assim como se sentia protegida pela luz, podia se sentir protegida pelas trevas. As trevas faziam com que ela invocasse aquela presença protetora. Precisava confiar nela. E essa confiança se chamava fé. A fé era exatamente aquilo que estava experimentando agora, um mergulho sem explicação numa noite escura como aquela. Existia apenas porque se acreditar nela. Assim como os milagres não tinham também qualquer explicação, mas acontecia para quem acreditava neles."

Sem Título #014





"Ás vezes, entramos num caminho apenas porque não acreditamos nele.

Então é fácil: tudo o que temos de fazer é provar que ele não é o nosso caminho.

Entretanto, quando as coisas começam a acontecer e o caminho se revela para nós, temos medo de seguir adiante.

Muitos passam a vida inteira destruindo os caminhos que não desejam percorrer, ao invés de andar pelo único que a conduziria a algum lugar"







Brida, Paulo Coelho

Peso da Desistência

Há quem diga que desistir ás vezes é o melhor caminho a ser traçado. Mentira!
As coisas não são tão simples assim. É claro que existem as mais diversas formas de pensar sobre os mais diversos motivos pelos quais se escolhe desistir, e é claro que ninguém nunca está errado, pois para cada atitude, com resultado positivo ou não, houve um motivo que naquele momento era o mais coerente.
Mas pensando bem, desistir não é o mais coerente a se fazer, nunca, por mais cruel e sangnolenta que a vida esteja sendo com a gente, pois quem carregará o peso das nossas tentativas anteriores para nós? É tudo pesado e grande demais para ser largado assim, no meio do caminho.

Outras pessoas que estejam quase largando tudo no meio do caminho também podem tropeçar nas nosssas tentativas e assim estaremos encorajando mais alguém a desistir. Logo, as consequências da nossa desistência não morre por ali, ela continua por muito tempo no meio do caminho, ajudando cada vez mais pessoas desistirem.

Assim como a gente.

Até que alguém, corajoso o suficiente resolve pegar aquela tentativa para ele, tirá-la do meio do caminho para que mais pessoas consigam seguir.

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